“Um dia vão descobrir que sou uma farsa. Que, na verdade, não sou especial, nem inteligente e nem talentosa. Que tudo que conquistei foi fruto do acaso, não de suor. Logo, não mereço nenhum destaque, nenhum like. Foi sorte.” Pensamentos assim passam como um turbilhão o tempo todo na mente de milhares de pessoas e indicam um fenômeno real, oficial: a síndrome do impostor, um fenômeno analisado por psicólogos desde a década de 1970. Estima-se que 70% das pessoas já passaram por experiências deste tipo, segundo uma recente revisão bibliográfica do International Journal of Behavioral Science.

O fenômeno não é uma “síndrome” no sentido literal, ou seja, não é um transtorno psiquiátrico, mas uma desordem que pode indicar traços de depressão e ansiedade. Idealizado pelas psicólogas americanas Pauline Clance e Suzanne Imes, em 1978, o conceito tem sido usado por mulheres poderosas como a ex-primeira-dama norte-americana Michelle Obama, a empresária Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook) e as atrizes Natalie Portman e Emma Watson.

As autoras do estudo definem a síndrome do impostor como uma experiência de sentir-se uma farsa intelectual, independentemente da dimensão de suas conquistas. Ela atinge mais mulheres — homens não estão imunes, mas expectativas que pesam sobre os ombros femininos tendem a agravar o caso. Minorias também são atingidas: entre negros, reportam-se altos níveis de ansiedade e depressão, diz um estudo da Universidade do Texas publicado no Journal of Counseling Psychology.

Outra investigação internacional realizada por três universidades e publicada em dezembro de 2019 no Journal of Vocational Behavior, revelou que fatores sociais impactam mais os indivíduos atingidos pela síndrome do impostor do que a própria performance, habilidade ou competência.

Em outras palavras, não importa o quão bom você seja: você se sente inseguro e pensa que não é bom o bastante, pois não se espera que “alguém como você” conquiste nada, afinal. Se conquistou, foi um lance de sorte — o que desperta um sentimento de culpa por outros tão talentosos não terem tantas oportunidades. No fim, como diz o meme, você queria ter a autoestima do homem hétero branco.

“É o peso histórico do ‘ser’ mulher, minoria étnica, LGBT”, diz a psicóloga Rosangela Sampaio, organizadora do livro “Sem medo do batom vermelho” (Conquista, 2020). “Para figuras públicas, o peso é maior, pois estão expostas ao olhar dos outros e, assim, acreditam que precisam mostrar uma ‘vida perfeita’. Na verdade, a perfeição é uma armadilha da nossa mente.”

<strong>De ‘fadas sensatas’ a ‘canceladas'</strong>

Se o fenômeno já é bastante discutido no mercado de trabalho e nas universidades há décadas, entre influenciadores digitais ele é relativamente novo. Em tempos de caça-likes, “fadas sensatas” e vida instagramável, qual é o impacto da síndrome do impostor nos influenciadores?

Em fins de 2017, a youtuber Gabi Oliveira tratou do tema no vídeo “Sou uma farsa?”, que recebe comentários até hoje. Em fevereiro de 2019, ela retomou o assunto no podcast Afetos. “Mulheres são mais suscetíveis, mas o recorte racial também é um fator importante”, recordou no podcast. “Há uma pressão nos ombros para negros serem melhores, duas vezes melhores. Isso faz a gente entrar em uma neura de que a gente não pode errar nunca. É impossível. Nós só somos humanos.”

Para a psiquiatra Ana Paula Carvalho, da Liga da Depressão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o julgamento do público — em especial os “haters” — pode acentuar as sensações de ser uma fraude. “Cada um deve escolher o caminho com o que quer trabalhar e estar preparado para as reações. Alguns escolhem abrir suas vidas por completo, mas esquecem que o ‘tribunal da internet’ é cruel”, pondera.

“O público nunca deve esquecer que, por trás de uma tela, de um perfil, está uma pessoa real, com sentimentos, fraquezas, qualidades e defeitos. Vale a máxima: dê aos outros aquilo que gostaria que dessem a você”, acrescenta.

Ativa no Instagram, a psicóloga Ellen Moraes Senra sentiu na pele a síndrome do impostor — o que a levou a até questionar sua escolha profissional durante a universidade. “Cheguei a ouvir algumas vezes que ‘psicologia é profissão de gente rica e branca'”, relata a terapeuta negra. “Minha mãe era doméstica e meu pai era funcionário dos Correios. Eles sempre lutaram pela nossa educação, mas era como se nossas opções fossem limitadas e não tivéssemos chance de chegar a lugares de destaque — não por eles, mas pela nossa sociedade”, critica.

“Há influenciadores literalmente impostores: os que recorrem a recursos fraudulentos como compra de seguidores e bots para bombar seus perfis”, lembra o jornalista Erisson Rosati, consultor de marketing e professor da Universidade Anhembi-Morumbi e do Centro Universitário Belas Artes. “Entre os influenciadores ‘de verdade’, mesmo quem discute abertamente fragilidades também está editando um trecho da vida real. Você mostra o que você quer, como você quer, até onde você quer.”

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